iPhone Duo: o melhor e o pior iPhone dos últimos anos — e por que ainda não vale comprar
O iPhone Duo é o aparelho mais apropriadamente batizado da Apple. Não só porque tem duas telas, duas câmeras traseiras e duas frontais, e um formato que lembra a letra “D” — mas porque quase tudo nele existe em dobro: para cada qualidade, há um “por outro lado” que corta no sentido oposto.
É a avaliação de Jason Cross, editor sênior da Macworld, que passou uma semana com o primeiro dobrável da Apple. E o veredito é desconfortável para uma compra de $2.000: “é o iPhone mais divertido de explorar em mais de uma década” e, ao mesmo tempo, um aparelho que ele não recomenda comprar. Ainda.
O que funciona: o desempenho está a salvo
O Duo traz o mesmo A20 Pro do iPhone 18 Pro — absurdamente rápido. É, sem contestação, o dobrável mais veloz do mercado. Nos testes, os números batem com os do 18 Pro, com duas ressalvas: gráficos 3D rodam um pouco mais devagar, e o aquecimento é mais perceptível em vídeo prolongado, jogos e uso intenso. Nada que quebre, mas o suficiente para afetar levemente a performance e para você notar.
A bateria é onde a dualidade aparece de forma mais crua. O benchmark padrão travou no aparelho, então o review é qualitativo: é um dos iPhones de maior autonomia — ou um celular de $2.000 que não chega ao fim do dia, dependendo de quanto tempo você passa com a tela interna aberta. Jogo e edição de vídeo na tela grande? Carregador antes do meio da tarde.
As câmeras: o ponto mais indefensável
“O iPhone mais caro e supostamente melhor do mundo não tem as melhores câmeras.”
A frase resume o capítulo. Falta a telefoto dos modelos Pro. A câmera principal traseira é boa, mas fica no nível de um iPhone 17, não do 18 Pro. A ultra-angular é o mesmo sensor de 48 MP usado desde o iPhone 16 Pro. A selfie da tela externa tem 12 MP, com Center Stage — recurso que estreou na câmera de 18 MP do iPhone 17.
No software, a ausência incomoda mais que o hardware: sem ProRAW, sem ProRes, sem gama Log 2, sem controle de velocidade do obturador, sem histograma. Em um aparelho de $2.000, Cross classifica como “roubo”. Em compensação, há os novos Estilos Fotográficos com controle de grão e textura, focus peaking e balanço de branco.
E há o furo mais comentado: a câmera interna sob a tela. Fica atrás de um pequeno círculo visível, sem o revestimento nano-texture. Para videochamada comprimida, funciona. Fora disso, é sofrível — resolução baixa, clareza ruim, alcance dinâmico péssimo, 4 MP e artefatos de superprocessamento. “Se esse é o preço da câmera sob a tela, eu não quero.”
O que salva o conjunto são truques genuinamente úteis: o Smart Take, que dispara a foto quando todos estão parados e olhando para a câmera, e a possibilidade de usar a tela externa como visor para fazer selfies com o sensor principal de 48 MP — a melhor selfie já feita em um iPhone.
Dois iPhones que não se conversam
Fechado, o Duo é o pior cenário. A área útil da tela externa é mínima, e o corpo é grosso, largo, pesado e desconfortável: 11,3 mm quando fechado (mais espesso que qualquer iPhone desde o iPhone 4) e 254 g, o mais pesado já feito pela Apple. Cross: “são todas as desvantagens do iPhone mini e nenhum dos benefícios.”
Aberto, é outro produto. Fino (5,2 mm), leve para o tamanho, com tela ampla e o revestimento nano-texture — que tira um pouco de contraste e “pop”, mas melhora muito o uso externo e esconde o vinco de forma notável.
Os alto-falantes surpreendem pelo estéreo e pela clareza; o grave segue ruim. E o Face ID virou Touch ID no botão lateral. O problema é ergonômico: como o Duo é usado em quatro ou cinco posturas diferentes, a posição do sensor muda com a orientação do aparelho, destruindo a memória muscular que torna o Touch ID confortável.
O gargalo real: os apps
Aqui está o motivo do veredito. Apps otimizados para o Duo — construídos com o SDK do iOS 27.1 ou posterior — são excelentes: duas visões simultâneas, barra lateral persistente, mapas com sobreposição de informação, elementos de interface deslocados para a borda direita. Slack, Netflix e Yelp entregam esse nível.
O problema é a proporção. Segundo o relatório de prontidão do WorksOnDuo citado no review, apenas 34% dos 100 apps mais populares rodam otimizados ou em tela cheia na tela interna. E o cenário dos jogos é pior: 14%.
O resto vira janela com faixas pretas. Google Home, Ring, Uber, Teams, Snapchat, Hulu, Venmo, Google Docs, Audible, quase todos os apps bancários. Em retrato, o app flutua no meio com barras em volta e traz de volta o botão “expandir” do iPad — e aí a interface, desenhada para tela pequena, fica difícil de alcançar. “É uma experiência horrível, e dói ainda mais porque você pagou mais de $2.000 por ela.”
O multitasking, por outro lado, é um acerto: dois apps lado a lado com arrastar e soltar, sem curva de aprendizado. Cross chega a defender que a Apple simplifique o iPad no mesmo caminho.
Durabilidade: boa engenharia, defeito real
A boa notícia é que o Duo tem IP68 — quase todos os dobráveis concorrentes são IP48. Testes de máquina abrindo e fechando a dobradiça dezenas de milhares de vezes mostram que ela resiste e que o vinco não piora de forma relevante.
A má notícia é que usuários relataram quebras na tela interna por um possível defeito de projeto ou fabricação da dobradiça — problema disseminado o suficiente para a Apple se manifestar. A empresa afirmou estar “ciente de um problema que afeta a tela interna de um pequeno número de unidades do iPhone Duo” e substitui os aparelhos afetados. A maioria não é afetada, e as unidades com defeito falham rapidamente.
O detalhe que assusta é o custo do reparo: trocar a tela interna custa $999 — metade do preço do telefone. Daí a recomendação explícita de AppleCare+ ($20/mês ou $200/ano), que derruba o conserto para $99.
Onde comprar e por quanto
O Duo foi anunciado em 9 de setembro, com pré-venda em 16 de outubro e vendas a partir de 23 de outubro, em Star White e Night Sky, rodando iOS 27.1. A tabela vai de $1.999 (256 GB) a $3.199 (2 TB) nos EUA — no Brasil, a imprensa especializada aponta a partir de R$ 21.999.
O veredito
O iPhone Duo é, talvez, o primeiro iPhone genuinamente novo desde o original. Apps não apenas ficam mais altos ou com mais resolução — eles funcionam de outra forma. Mas é também o primeiro iPhone em que uma boa parte dos apps do dia a dia é pior que no aparelho anterior.
“Não se pode avaliar um aparelho pelo seu potencial não realizado. É por isso que, mesmo tendo me divertido mais explorando o iPhone Duo do que qualquer outro iPhone em mais de uma década, não consigo recomendar que alguém compre um. Ainda.”
Quem deve esperar: o comprador casual, sem dúvida. Quem aceita o risco consciente: quem usa majoritariamente apps já otimizados e vai manter a tela aberta na maior parte do tempo.
